Consulte www.asleisdosegredo.com
Sunday, May 18, 2008
Consulte www.asleisdosegredo.com
Tuesday, May 6, 2008
Diferentes futuros nos separam

O mundo deste início do século XXI é, mais do que nunca, plural. Um número considerável de seres humanos habita ainda regiões cultural e socialmente distantes e diferentes das sociedades ditas industrializadas. Na própria sociedade ocidental biliões de cidadãos, ainda que mergulhados em hábitos e comportamentos de consumo de massa, com acesso aos mais diversos produtos e serviços (incluindo material de guerra sofisticado), situam-se em níveis de evolução diferentes tendo do mundo e do futuro (seus e da sociedade) visões e expectativas muito diversas.
Esta miscelânia de “mundos” e de “visões e expectativas” distintas confere ao nosso planeta múltiplas dimensões e desenhos da realidade humana. O tema foi pela primeira vez abordado pelo professor de psicologia americano Clare W. Graves, nos anos 60, tendo sido posteriormente desenvolvido por Don Edward Beck e Christopher C. Cowan. Actualmente, nomes como Ken Wilber, uma das mentes mais brilhantes do nosso tempo, adoptaram o seu modelo de compreensão do mundo. Dois livros se destacam pelos seus contributos decisivos no seu esclarecimento e promoção: Spiral Dynamics, de Beck e Cowan (1996) e A Theory of Everything, de Ken Wilber (2002), publicados em Portugal respectivamente pelo Instituto Piaget e pela Editora Estrela Polar.
Baseados no trabalho pioneiro de Clare Graves, Beck e Cowan propuseram um modelo de desenvolvimento humano que, devido à sua configu-ração, recebeu o nome de Dinâmica da Espiral. Este modelo tem sido validado e não refutado por diferentes pesquisas. Segundo este modelo, o ser humano nasce no estádio 1 e pode evoluir até ao estádio 9 dependendo essa evolução de múltiplos factores psicológicos, culturais e sociais. Escreveu Graves: “é um processo espiralado, emergente, oscilante, marcado por uma progressiva subordinação de sistemas de comportamento mais antigos e de ordem inferior a sistemas mais recentes, de ordem superior, que ocorre à medida que os problemas existenciais de um indivíduo se alteram“.

A existência humana, segundo Graves, contem numerosos, provavelmente infinitos, modos de ser, enraizados precisamente nos imensos potenciais do cérebro hierarquicamente estruturado da humanidade. Mas a dinâmica humana faz com que diferentes indivíduos estejam a viver em diferentes níveis de percepção, visões do mundo e estilos de vida. Num mesmo país, numa mesma rua, encontramos indivíduos cujo estádio de desenvolvimento se distingue dos seus vizinhos, se bem que a tendência seja para se agruparem em função da partilha dos mesmos sistemas de crenças, valores e níveis de existência.
Assim, cada um dos sucessivos estádios, ondas ou níveis de existência é uma condição pela qual as pessoas passam no seu percurso rumo a estádios de existência distintos, com psicologias próprias e ajustadas a cada nível: sentimentos, motivações, ética e valores, bioquímica, grau de activação neurológica, sistema de aprendizagem, sistemas de crenças, conceito de saúde mental, conceitos e preferências relativamente a negócios, educação, economia e teoria e prática políticas (Graves,1984).
Beck e Cowan desenvolveram então o conceito de vMEME tendo como ponto de partida o termo “meme” proposto por Mihaly Csikszentmihaly em 1993. Um vMEME é um meta-meme, isto é, um princípio organizador da existência humana que actua nas nossas mentes através de crenças, estilos de vida, tendências de linguagem, normas culturais, formas de arte, expressões religiosas, modelos económicos, etc. Os vMEME codificam instruções para as nossas perspectivas do mundo, as suposições de como tudo funciona e a fundamentação lógica para as decisões que tomamos. Os vMEME representam as influências ambientais (culturais, sociais, educacionais, etc) que moldam não apenas as nossas mentes como as próprias células do cérebro. Eles circulam profundamente nos sistemas humanos e pulsam no centro das escolhas e da inteligência de cada indivíduo. São um produto da interacção do equipamento nos nossos sistemas nervosos com o ambiente e as condições de existência (onde se destacam o tempo, o lugar, os desafios e as circunstâncias) que enfrentamos.
Os vMEMES actuam a três níveis distintos: indivíduos (modelando as suas vidas e os seus valores, da sobrevivência mais básica no aldeão global até ao mais inacessível pensador); as organizações (determinando o seu sucesso ou o seu fracasso no mercado competitivo); e as sociedades (locais ou nacionais) que seguem modelos de existência dependentes de vMEMES com diferentes sentidos (democrático, conservador, etc).
O modelo da Dinâmica da Espiral foi já testado em mais de 50 mil pessoas de todo o mundo e mantem-se válido. Ele apresenta-se, graficamente, com este aspecto:

Wilber divide a espiral em dois grandes estádios: o primeiro contempla os níveis mais inferiores de desenvolvimento psicológico e onde se situa a maioria da população mundial (das nações, dos governos, das empresas); o segundo abrange os níveis mais evoluídos e contempla um número mais restricto mas psicologicamente e culturalmente poderoso.
São nove os níveis de evolução humana propostos por Ken Wilber com base no modelo inicial de Graves e conforme a predominância dos vários vMEMES:
-
Nível 1 (prevalece o instinto de sobrevivência, a prioridade é dada aos alimentos, ao calor, ao sexo e à segurança). Encontra-se ainda, segundo Wilber, em 0,1% da população adulta mas também se observa em todos os bebés recém-nascidos, nos sem-abrigo, nas massas de população faminta do Sudão e de outras regiões inóspitas.
-
Nível 2 (predomina o pensamento animista). Estão neste estádio cerca de 10% da população e pode ser encontrado nos gangs, nas “tribos” corporativas, nas populações devotadas a rituais mágicos, pactos de sangue, crenças e superstições étnicas de cariz mágico.
-
Nível 3 (mentalidade feudal). Encontram-se neste nível cerca de 20% da população adulta mundial e 5% do poder está nas suas mãos. Pertencem a este nível reinos feudais da Ásia muçulmana, líderes de gangs, juventude rebelde, crianças entre os 2 e os 3 anos de idade e mentalidades de fronteira (lutam sobretudo pela posse de territórios).
-
Nível 4 (mentalidade conservadora e corporativa). 40% da população adulta mundial vive neste nível de existência e detem 30% do poder. São exemplos a América puritana, a antiga China confucionista, o judaísmo hassídico, o fundamentalismo religioso cristão e islâmico, grupos como o Exército da Salvação, os escuteiros e ideias como o patriotismo, organizações corporativas, ordens (Malta, Maçonaria, etc).
-
Nível 5 (mentalidade racional-materialista). Encontra-se em 30% da população que detem 50% do poder actual. Indivíduos e sociedades altamente orientadas para os resultados: Wall Street, classes médias emergentes no mundo ocientalizado, colonialismo, indústria da moda, etc.
-
Nível 6 (ecológico e comunitário). Neste nível vivem cerca de 10% da população que detem 15% do poder. Sensíveis ao equilíbrio ecológico, contra as hierarquias estabelecidas, as pessoas que estão neste estádio são fortemente pluralistas, defendem o multiculturalismo e a igualdade. Encontram-se nos movimentos ecologistas, no idealismo holandês, nas organizações não-governamentais como os Médicos Sem Fronteiras, nos partidos “os verdes” da Europa, etc.
-
Nível 7 (integrador). Um por cento da população, com cinco por cento de poder situam-se neste nível. Defendem um mundo sem fronteiras, igualitário, transcendente, solidário. A flexibilidade, a espontaneidade e a funcionalidade têm prioridade máxima. Exemplos: a Teoria do Caos, a “nova física” de Fred Allan Wolf, ensinamentos de Deepak Chopra.
-
Nível 8 (holístico, visão global). Apenas 0,1% da população está neste estádio e detem 1% do poder. Crença principal: o mundo é um único organismo dinâmico, com a sua própria mente colectiva. Exemplos: o conceito de “aldeia global” de McLuhan, as ideias de Gandhi de harmonia pluralista, os ensinamentos do filósofo Ken Wilber, a “hipótese Gaia” de James Lavelock e a “noosfera” de Pierre Teilhard de Chardin. O mais brilhante filósofo da actualidade - Ken Wilber - cujos ensinamentos são um exemplo do nível 8 defende um próximo estádio, o 9º:
-
Nível 9: (integral e holónico). Estará lentamente a emergir em alguns (poucos) núcleos. Wilber, em A Theory of Everything defende uma nova humanidade que altere radicalmente velhos paradigmas e conflitos despertando nos indivíduos o aproveitamento integral das potencialidades humanas. O núcleo central deste “movimento para cima” situa-se no Instituto Integral (Estados Unidos) e tem atraido personalidades e investigadores de distintas disciplinas tais como David Chalmers, Howard Gardner (teorizador das Inteligências Múltiplas), John Searle (conhecido estudioso do fenómeno da consciência), o físico Ervin Lasszlo, o biólogo Francisco Varela (entretanto falecido), Larry Dossey, etc.
Estou plenamente convicto que são estas diferenças sócio-culturais e sobretudo psicológicas que explicam porque enquanto que, neste mesmo instante, existem mentes humanas preocupadas na conquista do futuro e prescrutando os céus em busca de novas fronteiras no Espaço, outras, muitas mais, ainda lutam e morrem, como há 10 mil ou 50 mil anos pela conquista de algumas faixas de territórios inóspitos e inviáveis onde nada mais cresce do que ódio e desumanidade.
Wednesday, October 4, 2006
Crise de inteligência na Humanidade?
Monday, May 8, 2006
O homem como produto da natureza e da civilização
“... o único animal que conheceu essa ruptura, essa passagem do fantástico mundo da natureza a um mundo em que o essencial dos comportamentos e de sua evolução passa a ser relacionado a um fenômeno civilizatório, é o homem.”
Os temas relacionados com os avanços científicos da biotecnologia, da sociobiologia e de áreas afins têm ocupado espaço crescente tanto no debate ético entre cientistas quanto nos meios de comunicação, em que se repercutem. Em Maio de 2004, a revista Debate da Universidade Federal de Minas Gerais publicou uma entrevista com o geneticista francês Axel Kahn, professor da Universidade de Paris e então presidente da Comissão de Alto Nível para as Ciências da Vida da Comunidade Européia. A entrevista foi conduzida pelos professores Telma de Souza Birchal e Ivan Domingues, do Departamento de Filosofia da UFMG, uma entrevista que eles gentilmente cederam à DIVERSA e cujos principais trechos se transcrevem a seguir.
DIVERSA – Em suas obras, o senhor dá um lugar importante aos temas da consciência e da liberdade para pensar o ser humano. Ao mesmo tempo, afirma uma antropologia monista. Com a autonomia e a liberdade, colocamos o homem fora da natureza. Com o monismo, temos que colocar o homem na natureza . Então, como podemos conciliar o monismo com a liberdade do ser humano?
Axel Kahn – Minha posição é muito clara. Sou monista. Coloco o homem na natureza. Integro os conceitos de consciência e de liberdade como sendo, profundamente, um fenômeno de natureza. Portanto, para mim, não há contradição. Mas vou precisar as coisas. Na qualidade de monista materialista, sou naturalmente darwiniano e penso que as notáveis capacidades cognitivas e comportamentais do homem são produto da evolução. Assim como a consciência, que permite a autonomia, tal como se exprime através do sentimento de liberdade. Agora, na qualidade de cientista, e simplesmente como uma pessoa que reflete, posso conceber que a liberdade, às vezes, é largamente ilusória. Mas é uma ilusão fundadora, antropologicamente essencial. E a ilusão não é total, porque o determinismo não o é. Vou dar um exemplo: imaginemos que você me faça uma pergunta e eu tenha que fazer uma escolha. Qualquer que seja essa pergunta, você vai me propor uma escolha entre duas atitudes, entre duas maneiras de comportamento, não importa. Quais são os elementos que intervirão na minha escolha? Vai haver um pouco dos elementos da natureza, eventualmente. Se sou um homem ou uma mulher, minha escolha não será a mesma. Dependendo da questão, é um elemento de natureza que vai, eventualmente, levar minha secreção de serotonina no meu cérebro, de dopamina ou outra substância qualquer, a fazer uma escolha e não outra. Mas, no essencial, meu determinismo não vai ser biológico, genético, vai ser epigenético. O que vai me levar a essa escolha é a educação que recebi. São as repulsas que sinto. São os prazeres e os temores, as experiências ruins, as dores que vivi. Mas tudo isso é um determinismo perfeito. Ao final, será que esses determinismos biológico e não-biológico, cultural, conjuntural, me levarão a determinar, sem dúvida possível, a escolha que faço? A resposta é não, porque a ciência demonstra perfeitamente isso. A um certo grau de complexidade, mesmo se tudo, em teoria, é determinado, persiste uma incerteza de tal ordem que o resultado final não é determinado. Esse fenômeno é chamado de caos determinista. Penso, evidentemente, que a complexidade da conexão cerebral, a complexidade dos mecanismos que me levam a fazer uma escolha é de tal ordem, que se aproxima dos fenômenos de caos determinista. Portanto, uma vez que essa cascata de elos de causalidade aconteceu, encontramo-nos diante de várias escolhas igualmente possíveis. Não há nenhuma solução única à pergunta que você me fez. Como farei para escolher entre essas respostas igualmente possíveis? É a minha liberdade, a priori, que vai intervir? Pessoalmente, não acredito, pois não sei o que isso quer dizer. E, aqui, penso que a escolha que vou fazer entre as opções possíveis é completamente aleatória. Eu a faço ao acaso e, uma vez que a fiz ao acaso, estou consciente. Portanto, sei que quem fez essa escolha sou eu. Tal escolha, mesmo se aleatória, me pertence, ela me compromete. Como sou eu quem fez essa escolha, mesmo se a fiz de maneira aleatória, torna-se minha escolha e sou responsável por ela. Se penso que sou livre, na verdade, posso pensá-lo, porque sei que teria sido possível fazer uma outra escolha. Na verdade, sempre podemos nos perguntar se seria possível fazer uma outra escolha. Portanto, em resumo, proponho uma solução singular, que é a de uma liberdade, ilusão necessária, e de uma autonomia, de uma escolha livre a fortiori e não a priori.
“… o desejo de liberdade, a palavra e o sentido da liberdade, são pilares essenciais da humanização “
DIVERSA – Edgar Morin, para salvar o monismo, pensa toda a complexidade da relação da natureza, isto é, o cosmos, a matéria viva e a consciência. Para pensar essas relações, é preciso abandonar o reducionismo. É preciso pensar nas propriedades emergentes. A vida é uma propriedade emergente, acrescenta algo de novo. A consciência também. E, com ela, a liberdade. Numa perspectiva holística, a mesma base material e um conjunto de propriedades emergentes percorrem o mundo físico, da vida e da história. O que acha disso?
Axel Kahn – Na verdade, minha reflexão é muito próxima do que você acaba de dizer. No meu último livro, que é um diálogo com Albert Jacquard (O futuro não está escrito), há uma oposição entre eu e ele. Eu penso que há uma descontinuidade no ser vivo e uma descontinuidade na consciência. Já Albert Jacquard diz que não há. Segundo ele, a vida não se sabe o que é, mas a matéria etc… Aliás, somos de uma extraordinária banalidade molecular! Eu lhe disse: “É verdade”. Mas fiz o seguinte comentário: “Ao ouvi-lo, não há descontinuidade entre a pedreira e a catedral de Chartres. Naturalmente, a catedral de Chartres, mesmo procedendo da pedreira, corresponde a uma descontinuidade em relação à organização da matéria anterior”. Admitamos que a vida é, pelo menos, uma descontinuidade do mesmo tipo. Na consciência, as coisas são para mim um pouco mais complicadas. Por outro lado, é verdade que as capacidades cognitivas do mundo animal crescem. Que o macaco é mais esperto que o coelho, que é mais esperto que a minhoca, por exemplo. Não existe de uma só vez o mundo animal e, depois, o mundo humano. Meu cão é capaz de compreender dez frases aproximadamente. Ele compreende perfeitamente e responde de maneira adaptada. Portanto, há certamente uma evolução. Mas há, entretanto, uma descontinuidade. Eu a explico da seguinte maneira. É um fenômeno da reação em cadeia. Ou seja, é preciso a cultura para aculturar o homem e permitir-lhe se beneficiar de suas capacidades cognitivas. No começo, porém, não há cultura. Então, as capacidades cognitivas do homem não lhe servem para nada, uma vez que não há cultura. Na realidade, não é exatamente assim, porque as capacidades cognitivas potenciais do homem, que lhe permitem fabricar os primeiros instrumentos, por exemplo, que são elementos decisivos para alimentar sua mulher, seus filhos, defender-se contra os animais selvagens, correspondem, evidentemente, a uma vantagem seletiva. É uma cultura ainda muito fraca. O homem, no entanto, teve a capacidade de produzir bastante cultura a partir de um dado momento. A partir de 70 mil anos, com o aparecimento da arte, por exemplo. Setenta mil, 40, 50 mil anos, para aumentar suas capacidades cognitivas, que lhe permitiram produzir mais cultura, que retroagiram positivamente sobre suas capacidades cognitivas. E, pelo que conheço, por notáveis que sejam os cetáceos ou os outros primatas, o único animal que conheceu essa ruptura, essa passagem do fantástico mundo da natureza, em que o essencial dos comportamentos se relaciona a uma evolução biológica, a um mundo em que o essencial dos comportamentos e de sua evolução passa a ser relacionado a um fenômeno civilizatório, é o homem. Portanto, há, incontestavelmente, uma descontinuidade, que não é biológica, na verdade, que é extremamente sutil. E essa descontinuidade me leva a pensar que, afinal de contas, não posso mesmo excluir que o mesmo aconteça, um dia, com outra espécie. O que digo, e chamo a atenção para isso, é que, até hoje, nenhuma outra espécie, senão a nossa, conheceu essa descontinuidade. Mas, para voltar à sua pergunta, tudo isso corresponde tipicamente às capacidades e aos fenômenos, às propriedades emergentes. Isto é, às propriedades emergentes que procedem de um conjunto complexo – a complexidade nunca sendo ela própria redutível à soma de suas partes constitutivas.
DIVERSA – A pergunta, agora, é a respeito de dois fantasmas que nos perseguem. O primeiro é o fantasma de Frankenstein e de tudo que nos atemoriza no progresso das ciências, sobretudo da biotecnologia moderna. Há um temor das conseqüências do conhecimento. O segundo fantasma é a lembrança da inquisição, por exemplo, da condenação de Galileu, que nos diz que não se pode parar o avanço da ciência e cuja palavra sagrada é “liberdade”. Estamos entre esses dois fantasmas. O que fazer?
Axel Kahn – Vou fazer duas coisas. A primeira, reinterpretar o mito de Frankenstein. Penso que Mary Shelley, embora seja autora do mito, não o interpretou até o final. Porque, lembre-se, a criatura tem não somente forma e força humana, mas tem outros atributos humanos, que são a consciência, a empatia, o desejo. Quando ele escapa e se acha na floresta, no interior da Suíça, de onde observa uma família, ele se impressiona pela vida familiar, pela afeição do homem e da mulher, dos pais pelas suas crianças. Ele gostaria de, também, experimentar isso. Essa é a razão pela qual ele vai procurar Victor Frankenstein, o criador, e lhe pede para criar uma criatura fêmea. Não tanto para se reproduzir, mas para ser totalmente humanizado, para o que é preciso ter uma parceira que o olhe como tal. Ora, os homens não olham essa criatura como um homem, como um deles, conseqüentemente, são incapazes de interagir com ela positivamente, são incapazes de humanizá-la. É preciso dois para ser um homem, ou, mesmo, uma criatura humanizada, e a criatura pede isso a Victor Frankenstein, que começa a fabricar a mulher. Ele não chega ao final do seu empreendimento, porque sente medo de uma geração de pequenos monstros conquistando a Terra. Estamos, então, diante de um ser que tem a capacidade de ser humano, que tem a capacidade de ter uma consciência, que tem o desejo de amar, mas está proibido de humanizar-se. Estamos, de alguma forma, na situação de todos os grandes criminosos, que não foram nunca considerados pelos outros como pertencente ao seu mundo. Assim as pessoas, cuja violência extraordinária tem sua origem no fato de que foram permanentemente rejeitados, negadas como pertencentes à humanidade. Frankenstein-criatura é isso. É potencialmente humano, mas é impedido de ser humanizado pela única pessoa que pode fazê-lo. Eu reinterpreto assim o mito de Frankenstein, concluindo que é porque a tecnologia não foi até o fim nos seus propósitos que o desastre acontece e, não, porque deu início a esse empreendimento. Como vêem, é, na verdade, uma interpretação que é completamente heterodoxa, se partimos da idéia que Mary Shelley apresenta, mas estou disposto a defendê-la. Dito isso, estou convencido de que o desejo de liberdade, a palavra e o sentido da liberdade, são pilares essenciais da humanização. Essa liberdade dá o direito, entre outras coisas, à liberdade de conhecimento. Uma outra definição de homem é a de um mamífero que quer conhecer, que tem uma fome inextinguível de conhecimento. Não somente tem os meios cognitivos para conhecer, mais ainda tem os meios de legar seu conhecimento aos outros de tal forma, que, como dizia Pascal, “toda a seqüência de homens, depois de tantos séculos, é como um só homem que aprende continuamente e que continua vivendo”. Isso dito, volto à fonte do Iluminismo e da revolução francesa. Essa liberdade, se é uma liberdade, tem os mesmos limites que qualquer outra. Isto é, que ela termina onde poderia prejudicar a do outro. Então, a liberdade de conhecer não é a liberdade que, para conhecer, coloca em perigo a saúde, a autonomia, a segurança, a dignidade, a liberdade do outro. Conseqüentemente, há certamente uma liberdade absoluta de conhecer, mas, naturalmente, desde que a liberdade passa por uma ação sobre o outro, há leis que projetam o outro. Quando essa liberdade de conhecer leva à transformação do conhecimento numa técnica, cujo objeto de aplicação é o homem, ou o que tem valor para ele, não cabe mais ao pesquisador, que exerceu sua liberdade de conhecer, determinar como vai utilizar a técnica que resultou desse conhecimento sobre outro. Esse é, tipicamente, um objeto de discussão e de normalização social. Por exemplo, pode-se clonar o homem? Clonar o homem é um problema que, evidentemente, ultrapassa a liberdade do pesquisador. Sou favorável aos trabalhos que conduzam ao aprofundamento dos conhecimentos sobre a embriogênese, graças à clonagem. Posso, paralelamente, pronunciar-me a favor da liberdade da pesquisa, dizer que, em matéria de pesquisa, é proibido proibir explorar um campo do saber e reconhecer, naturalmente, que as condições em que o exploramos devem ser objeto de regulação social e que as técnicas derivadas dessa exploração, quando o objeto de aplicação é o homem e seu meio ambiente, devem, igualmente, ser discutidas e regulamentadas por meio de formas de normalização social.
“… o cérebro humano, produto da evolução, tem a capacidade de produzir civilização “
DIVERSA – Nossa última pergunta é sobre sociobiologia. Gostaríamos de saber o que o senhor pensa, por exemplo, da posição de Wilson (ver nota em baixo).
Axel Kahn – É preciso separar a sociobiologia aplicada ao mundo animal e a extensão da sociobiologia à totalidade das atividades humanas. A sociobiologia como meio de estudar a evolução dos comportamentos animais, associada à evolução biológica, talvez criticada por certos aspectos, eu penso que é um método testado, que é interessante… Agora, a extensão automática à complexidade da civilização humana parece-me ser um tipo de sofisma, que faço questão de denunciar. Wilson, por exemplo, começa dizendo que a evolução darwiniana explica o aparecimento de todas as espécies, a diversificação das espécies, inclusive a do Homo sapiens. Concordo. Ele afirma que, conseqüentemente, as diferentes características do Homo sapiens, inclusive a consciência, talvez o desejo de liberdade, poderiam ser explicadas, no início, por mecanismos biológicos. Tendo a concordar. Ele continua dizendo, mas estou simplificando, mas é mais ou menos isso, já que o cérebro humano e suas capacidades são produtos da evolução, tudo o que produz o cérebro humano, isto é, não somente o ser humano, mas igualmente o agir humano, deve responder ao mesmo mecanismo de natureza que presidiu à evolução. E ele conclui, na sua primeira obra, o que, aliás, retoma, de uma forma um pouco atenuada, no seu último trabalho, que se chama Consilience, que a criação artística, a filosofia, a história, a sociologia, a política representam apenas artifícios utilizados pelo mecanismo fundamental da evolução que é a luta pela vida, a luta pela reprodução privilegiada. O que não é digno de crédito nessa extensão, o que é abusivo, é o seguinte: o cérebro, incontestavelmente – alguns contestarão – para mim, o cérebro humano, produto da evolução, tem a capacidade de produzir a civilização. E, num dado momento, produz-se esse fenômeno de massa crítica, de reação em cadeia de tal forma, que o pouquinho de cultura criado no início aumenta as capacidades cognitivas, que permitem criar mais cultura, que permitem aumentar, mais ainda, as capacidades cognitivas e que, de repente, faz o homem transportar-se da animalidade mais evoluída à humanidade. Mas esse processo nunca foi experimentado pela natureza. Ele emerge da realidade da natureza; não é uma criação da natureza. De tal forma, que pretender que a totalidade dos detalhes do processo civilizador mimetize o processo biológico da natureza não tem nenhuma razão de ser, não tem nenhuma justificativa. Parece-me ser um sofisma completo.
(1) A sociobiologia tem como objeto a organização social dos animais (das formigas aos primatas) e afirma que esta resulta do processo evolutivo, ou seja, dos mecanismos de seleção natural. Estendida aos grupos humanos, a teoria defende a idéia de que nossa psicologia e nosso comportamento social são frutos da evolução e, ainda, de que comportamentos humanos específicos (como o homossexualismo e a agressividade, por exemplo) são influenciados pela herança genética. O principal nome da sociobiologia é o biólogo americano Edward Osborn Wilson, autor de Sociobiologia, uma nova síntese (1975), Sobre a natureza humana (1978), O fogo de Prometeu (1983) e outras obras. Acusado de não conceder o lugar devido aos aspectos culturais em sua compreensão do ser humano, em obra recente (Consilience, 1998), o cientista propõe a tese de uma “co-evolução genético cultural”. Essa perspectiva radicalmente naturalista de abordagem do ser humano suscitou debates apaixonados, sendo, inclusive, acusada de favorecer o racismo, o liberalismo e a misogenia. A favor da sociobiologia, temos, por exemplo, Richard Dawkins, autor de O gene egoísta. Contra, Stephan J. Gould, autor de A galinha e seus dentes. (Telma Birchal)
Friday, March 17, 2006
A vida é criação!
“O ser humano não cresce quando repete. Só cresce quando utiliza o seu poder criador.
Há muitos anos que vamos repetindo o passado e tentando melhorá-lo no futuro. E não resulta.
No entanto, no ensino, nas escolas, no teu quotidiano, ensinam-te a repetir e verificam se repetes bem.
A evolução humana nunca se coadunou com repetição. O ensino é uma repetição, a vida quotidiana é uma repetição, a vida com os amigos é repetição, a vida em família é repetição, as religiões são repetição.
E o mundo não funciona”.
Texto de Luis Martins Simões, autor de “És Criador ou Repetidor?”, “Goste de Si” e “Atreva-se!”.
Friday, March 3, 2006
Mudança e Transformação
Meus caros leitores. Deixo-vos hoje com um belo texto de Walther Hermann. Ele nos fala do tempo passado, presente e futuro e nos alerta para a necessidade de fazermos da nossa vida um tempo de mudança e transformação.
“Dizem que devemos tomar cuidado com os nossos desejos, pois eles podem se concretizar! Pois creio que estamos vivendo exactamente esse drama no presente. Pense bem, o quanto a indústria cinematográfica americana explorou filmes de guerras, apocalipses, heróis renegados, etc… Não é exactamente isso que eles estão enfrentando agora? E pior, a realidade pode ser muito mais dramática e contundente que a ficção!
Quando nascemos como seres humanos, encontramos um mundo que já existia antes de nós e que provavelmente continuará a existir após nossa existência. Diferente de qualquer outra civilização da história humana, a cultura ocidental permite e convida cada indivíduo a contribuir na construção do conhecimento e do próprio mundo. Isso porque, diferentes de outras culturas do passado, não aceitamos mais o mundo como pronto e acabado, como se fosse definitivo e permanente - não, mudança e transformação se tornaram parte de nossa compreensão!
Assim sendo, termos o privilégio de existir na Era da Informação, exige também uma grande responsabilidade: a flexibilidade de nos adaptarmos às necessidades do mundo e, quem sabe, retribuirmos ou oferecermos ao mundo o nosso legado pessoal de conhecimento, descoberta, criatividade, trabalho e experiência.
No passado, a posse de propriedades e património imóvel garantia riqueza, sucesso e prosperidade… Da mesma forma, jóias, ouro e riquezas dessa natureza. Mas, se reflectirmos sobre a origem das maiores riquezas da actualidade, talvez cheguemos à impressionante conclusão que é o conhecimento a maior riqueza e o verdadeiro património que possuímos, embora este seja completamente imponderável! Pense, quanto vale a fórmula da Coca-Cola, os segredos da farmacologia (indústria de medicamentos), o conhecimento de informática e de estratégia comercial que possui a Microsoft, entre outros tantos!
Quem sabe, exactamente por causa disso, nunca foi tão fácil na história da humanidade, escalarmos ou despencarmos da pirâmide social, mudando rapidamente de nível sócio-económico e de classe social… Tudo graças a esse “ouro sem peso” chamado de informação e conhecimento, cada vez mais disponível, melhor e mais rápido, para quem souber encontrá-lo, seleccioná-lo, interpretá-lo e utilizá-lo! Entretanto, na mesma proporção que essas “pérolas” e esses “diamantes” do conhecimento estão disponíveis e espalhados pelas ruas, “jogados no chão”, existe também cada vez mais “lixo”, na forma de boatos, informações desactualizadas e falsas verdades!
O mais interessante é que quase a totalidade do conhecimento disponível actualmente está codificado na nossa escrita nos livros, revistas, jornais e, mais recentemente, nos meios virtuais tais como a internet.
Pense bem, tudo está cada vez mais rápido… Os carros são melhores, mais seguros, mais económicos e possuem maior rendimento… As viagens de avião, os combóios, o metro… Todos cada vez mais rápidos… Se, no passado, você escrevia cartas que demoravam dias ou semanas para alcançarem seus destinos, hoje, ao enviar uma mensagem pela internet, ela chega do outro lado do mundo em poucos instantes! Tudo anda melhorando, ficando mais rápido e mais barato (ou será que um carro era acessível no início do século vinte ou um computador compatível com uma residência nos anos 60?).
O que comentamos até aqui, talvez você já esteja cansado de saber, mas o que possivelmente ainda não saiba é que, graças a todas essas evoluções, em vários campos do desenvolvimento humano e tecnológico, resultados das mais modernas pesquisas das ciências do comportamento e do funcionamento do cérebro humano (neurociências), novas e sofisticadas “ferramentas” estão sendo criadas para, de agora em diante, tornar o ser humano cada vez mais rápido e apto a se adaptar, viver, criar e prosperar nesse mundo em constante transformação.
Esse novo ser, ’super’ humano, capaz de fazer as coisas melhor, mais rapidamente e com menos esforço… Sim! Todos nós sonhamos com essa época na qual as máquinas trabalhassem por nós… E agora, esse tempo chegou nos trazendo uma das crises mais cruéis e universais - descobrimos que talvez não fosse bem isso o que desejávamos: falta de empregos, fome, miséria, etc. Profissionais de todos os níveis sem ocupação, mudando de profissões, necessidade de se construir currículos cada vez mais exigentes e especializados e, por outro lado, vagas disponíveis no mercado não sendo ocupadas por falta de profissionais qualificados! Contraditório, não?
É exatamente essa insatisfação a força que nos impulsiona a buscar o novo e o que existe de mais sofisticado para nos prepararmos para viver melhor e mais satisfeitos. Apenas uma parcela de cinco por cento das pessoas procura melhorar, aprender e se desenvolver antes que as necessidades se apresentem. E, como diz um dos criadores da Programação Neurolingüística, “se continuarmos a fazer as coisas como sempre fizemos, estaremos condenados a obter e permanecer com exatamente os mesmos resultados” (Richard Bandler), ou menos!
Faço parte de um grupo de educadores que acredita que quando a educação e suas tecnologias tiverem se desenvolvido tanto quanto nossas actuais ciências de ponta: engenharia electrónica, genética, micromecânica, etc, provavelmente uma criança com onze ou doze anos já terá conquistado o conhecimento correspondente a um grau de um doutoramento de nossas universidades actuais! É isso o que antevemos para o futuro! Com a utilização da realidade virtual, simuladores de tomada de decisões, educação à distância e a popularização das tecnologias de ensino de vanguarda!
Tenho um amigo italiano, com aproximadamente sessenta anos, que se estabeleceu no Brasil quando veio trabalhar numa multinacional… É um grande pensador. Um dia me disse o seguinte: - “Walther… Quando eu era criança, meus heróis eram soldadinhos de chumbo! Cowboys do farwest! E completou o pensamento dizendo que imaginava que a humanidade está passando por uma transformação nunca antes imaginada!!!
As gerações mais recentes tiveram como heróis e modelos de futuro, seres com habilidades super-humanas! Homens e mulheres que voam sem máquinas, que movem objectos com a força do pensamento, que vêem através da matéria sólida, que se comunicam telepaticamente sem palavras, etc. Essas “fantasias” estão abrindo caminho para uma nova humanidade… Para uma compreensão maior e uma profunda transformação na nossa raça! Por mais incrível ou alucinante que possa parecer.
Pense bem… O avião, o microondas, o computador, o raio laser, a electricidade, a luz elétrica, etc, em alguma data do passado, também foram apenas fantasias na mente de alguns “loucos visionários”! Todas nossas novas gerações já possuem um espaço mental para a existência de uma super-humanidade!
O que podemos então concluir é que nesse moderno mundo do conhecimento e da informação, aqueles que decidirem mudar os resultados que não estão a contento, terão que se juntar ao grupo desses 5% de pioneiros, sem medo de fazer as coisas de forma diferente, buscando o novo.
Se você já não for um deles, como desafio pessoal poderia tentar. Não precisa ser um novo “instantâneo”, comece aos poucos e pelas coisas simples. Por exemplo, mude o trajecto de seu caminho para o trabalho, mude o programa da TV, o lado da cama que você dorme, a sequência dos exercícios no ginásio, faça um curso completamente fora de sua área de actuação profissional, ou qualquer outra coisa que lhe agrade.
Depois de feita a mudança, pare para avaliar o que aprendeu de novo, quais os sentimentos que foram gerados, quais foram suas reacções, e finalmente o que de facto mudou em você. Com certeza vai gostar e notará como pode ser enriquecedora um experiência de mudança, ou no mínimo divertida.
Conclusões
Chegou a hora de arregaçarmos as mangas e enfrentarmos a dura constatação que chegou a nossa vez de experimentar a construção de um mundo mais humano, quem sabe, super-humano! E nada vamos conseguir apenas ficando sentados esperando que algo seja feito por nós… Olhe a sua volta e poderá até escolher por onde começar, tamanha a quantidade de coisas que devem ser feitas para melhorar nossas vidas e de nossa comunidade próxima”.
Thursday, March 2, 2006
Na Era do Conhecimento

A mente humana – com todos os atributos, potencialidades e mistérios que lhe são reconhecidos – continua a ser um tema sedutor e aberto às mais variadas abordagens (filosóficas, biológicas, neuropsicológicas, etc.). Produto da actividade concertada de grandes aglomerações de células cerebrais altamente especializadas e de um complexo metabolismo que só agora começa a ser compreendido, a mente humana cumpre numerosas funções que se exprimem em diferentes planos.
Graças à evolução bem sucedida do sistema cérebro-mente, a história da Humanidade é um percurso empolgante de conquistas. Em não muitos milhões de anos vencemos uma série de etapas evolutivas e, chegados ao século XXI, eis-nos senhores de uma sociedade multifacetada, complexa e altamente competitiva - produto, afinal, da dinâmica interacção entre o exercício do pensamento e os desafios da vida.
.
A história da humanidade reflecte assim, desde os seus primórdios, o resultado da nossa inteligência criativa. Em poucos milénios desbravámos territórios inóspitos e levantámos civilizações. Rapidamente percebemos que tínhamos o poder de exercer transformações no que antes parecia imutável. A criatividade tornou-se a grande força da nossa inteligência. De simples recoletores e caçadores passámos rapidamente a inventores, técnicos e artistas. E com isso modificamos completamente a face do planeta e a história do nosso Mundo.
.
Agora, em plena Era do Conhecimento, o intelecto perfila-se como um capital de valor inestimável. Já ninguém duvida que a riqueza das nações, das comunidades e das organizações (seja de que tipo forem) depende mais dos recursos intelectuais – inteligência, criatividade e conhecimento – do que qualquer bem tradicional, incluindo o próprio dinheiro. De facto, a força muscular e o trabalho das máquinas estão rapidamente a ser substituídos pela inteligência.
.
O neurofitness tem como finalidade ajudar o cérebro a atingir e a manter o nível de capacidade óptima. Esta disciplina assenta em três princípios fundamentais:
-
O cérebro é um órgão que tem a capacidade para se renovar a si mesmo.
-
O cérebro tem capacidade ilimitada de aprendizagem e pode aumentar a sua eficiência através do exercício.
-
O cérebro responde eficazmente à actividade física, ao treino mental e ao estilo de vida, podendo manter-se ágil durante toda a vida.
Uma característica vital do cérebro é chamada de neuroplasticidade. Aqui reside o segredo do poder mental. A neuroplasticidade (ou plasticidade neural) refere-se à capacidade dos neurónios de se transformarem e adaptarem a sua estrutura e função em resposta às exigências externas e internas do organismo.
De facto, toda a exigência que desafie ou estimule o cérebro (por exemplo, aprender um novo idioma) produz mudanças anatómicas muito significativas a nível celular como o aumento dos dendritos (filamentos que se ramificam a partir do centro da célula para contactarem outros neurónios), o aumento no número de espinhas dendríticas, a formação de novas sinapses (junções especializadas existentes nos neurónios através das quais estes conectam entre si), o aumento da actividade das neuroglias (células que apoiam os neurónios) e alterações no metabolismo celular (transformações químicas que estão no centro do trabalho cerebral).
Existem vários tipos de neuroplasticidade. A primeira, chamada de “neuroplasticidade de desenvolvimento” compreende vários e complexos estágios e realiza-se ao longo da vida dos neurónios a fim de permitir o natural desenvolvimento do cérebro. Outra forma, a chamada “neuroplasticidade dependente da experiência” surge especialmente com novas experiências, desafios e aprendizagem. Dá-se então a chamada expansão do mapa, isto é, a cada nova aprendizagem o cérebro reorganiza-se, expande as suas conexões neurais (de neurónio) e modifica as capacidades, ampliando-as e fixando-as na memória do indivíduo. Há também a “neuroplasticidade após lesão cerebral” que traduz as capacidades de auto-reparação nos tecidos que permanecerem intactos após uma lesão no cérebro. Finalmente, a “neurogénese” diz respeito ao nascimento de novos neurónios no cérebro.
Os exercícios de neurofitness´incentivam a actividade plástica do cérebro, ampliando e reforçando as suas múltiplas aptidões e talentos. É lícito acreditar que um cérebro activo e estimulado por diferentes desafios se revele mais perspicaz, mais hábil e naturalmente mais capaz de responder às solicitações do pensamento.
.
Na exigente sociedade de hoje só as pessoas que invistam seriamente no capital intelectual de que dispõem (inteligência, criatividade e conhecimento) poderão aspirar a lugares destacados no mundo do trabalho. Aprender mais e mais e durante toda a vida tornou-se numa exigência da Era do Conhecimento. Para tal temos de estar na melhor forma mental. A “potência cerebral óptima” pode ser atingida através de um estilo de vida sadio, uma alimentação equilibrada e ginástica cerebral adequada.
Saturday, December 10, 2005
Horizonte de tempo.

Chama-se “horizonte de tempo” e traduz a capacidade de conce-bermos o tempo na nossa mente e de nos projectarmos no futuro. É o período cognitivo dentro do qual somos capazes de projectar, planear e executar acções no futuro. Elliot Jacques, um antigo professor de sociologia britânico, chamou a esta capacidade “janela do tempo”.
Elliot Jacques foi peremptório: “a duração máxima de tempo que a mente de uma pessoa pode alcançar permite avaliar e definir o nível do poder cognitivo dessa pessoa”.
Geralmente, as pessoas com um horizonte de tempo amplo são bastante inteligentes e, por isso, podem ser magníficos visionários (no sentido em que percebem as mudanças subtis que ocorrem na sociedade e são capazes de intuitivamente conceber o que vai acontecer), além de excelentes condutores de missões.
Efectivamente, aumentam as provas (científicas) de que quanto mais longe o nosso cérebro for capaz de “trabalhar” no tempo mais inteligentes nos tornamos. Essa capacidade está localizada nos chamados “lobos frontais”, as zonas mais modernas (em termos evolutivos) do cérebro humano. Nas pessoas em que o “horizonte de tempo” é pequeno verifica-se alguma rigidez na elasticidade de resposta a desafios em que o factor tempo seja prioritário.
Em épocas como a nossa - em que temos de lidar com a complexidade, a ambiguidade, a rapidez dos acontecimentos e o paradoxo - as pessoas habilitadas a funcionar com amplos “horizontes de tempo” estão mais à-vontade para responderem criativamente aos desafios.
Robert Cooper, um prestigiado psicólogo organizacional, foi um extraordinário professor que me fez perceber a importância que cada um de nós deve dar ao factor “tempo” e à “percepção do futuro”.
Recordo alguns dos seus conselhos para agilizarmos a mente e desenvolvermos nela o “horizonte de tempo”:
-
estar abertos a todas as fontes de informação;
-
procurar mais do que uma resposta para os problemas;
-
usar conhecimentos ou dados contraditórios para gerar respostas alternativas;
-
pensar fora das regras e normas habituais (ser criativo e inovador!!);
-
dar atenção a tudo aquilo que, relativamente a um problema, fique por dizer;
-
não ter receio de gerar “novas teorias” ou de ”ver as coisas de forma diferente”;
-
encarar a incerteza como recurso!
Este professor sugeria também que, para começar, deveríamos desenvolver “uma visão pessoal do tempo futuro” (uma verdadeira “autobiografia futura”), imaginando-nos a actuar num tempo futuro. Aliás, este é um exercício que costumo aconselhar frequentemente às pessoas com alguns problemas de adaptação: convido-as a imaginar onde gostariam de estar e de fazer a 5 ou 10 anos de distância! Não é um trabalho de adivinhação mas de preparação mental e de expansão da consciência para o futuro. Os resultados são habitualmente muito animadores.
Como se faz isso? Recordo as palavras do professor: programar algum tempo semanal para, num lugar calmo, olhar para o futuro “vendo-nos” a actuar onde gostaríamos de estar. É um trabalho pró-activo é susceptível de alargar o nosso “horizonte de tempo”.
Estámos muito agarrados ao passado (estudamos a História), vivemos muito dependentes do que já aconteceu nas nossas vidas. O agora é fugidio e também não lhe prestamos a atenção devida. Olhando mais para a frente - o futuro - restam-nos planos, ambições ou medos. Há quem se recuse a pensar na vida a mais de uns quantos meses para a frente.
O futuro, de facto, não existe; está por acontecer, é indeterminado. Mas ao desenvolvermos a nossa “visão” interior ficaremos mais aptos a enfrentar com sucesso e de forma positiva tudo aquilo que o futuro nos trouxer. Por outro lado, ficaremos mais habilitados a modificarmos no presente elementos que irão repercurtir-se no futuro, alterando aquilo que um tanto fatalisticamente chamamos de “destino”.
Leituras adicionais: www.infofuturo.blog.com
Friday, December 9, 2005
Tempos de ansiedade.

Vivemos numa época difícil da Humanidade. Mais do que em qualquer outro tempo da história humana, este momento que atravessamos é particularmente inquietante. Na verdade, estamos bem no centro de uma encruzilhada onde ideias, convicções, modelos e certezas do passado se misturam com novos elementos, conceitos e valores de uma sociedade em acelerada transformação. Muitas pessoas ainda não se aperceberam como o mundo se modificou nos últimos 10 ou 15 anos e como isso começou a afectar as suas vidas. Outras, desorientadas, não descortinando as novas referências por que devem reger-se, vivem angustiadas, com uma sensação de perigo entranhada na alma.
Findou uma época. A nova é carregada de complexidades, incertezas, imprevisibilidades, rápida mudança e ambiguidades. O seu anúncio já se fazia ecoar desde os anos 60 em obras como “O choque do futuro” de Alvin Toffler e mais tarde em “A conspiração aquariana” de M. Ferguson. Fez-se anunciar também através do eclodir de movimentos e escolas como a New Age (Nova Era).
Habitamos um mundo onde coexistem dois paradigmas: o do materialismo tecnicista, fruto da idade fabril e tecnológica e o do novo espiritualismo que faz apelo à reconversão dos valores da serenidade e da sabedoria. Deste choque de ideologias e crenças resulta uma sociedade compreensivelmente conturbada e confusa.
Basta abrir um jornal diário para percebermos como está o mundo que nós próprios criámos ou aceitámos que fosse criado (pelos detentores do poder e das grandes escolhas que afectam a sociedade). Desemprego galopante, inquietações políticas, discursos inflamados mas vazios de ideias, ódios desmedidos, consumismo idiota e sem nexo, a procura atabalhoada pelo sucesso rápido, o deslumbramento dos novos ricos (jogadores de futebol, vedetas do mundo do espectáculo, etc), a desorientação visível e a ingenuidade assustadora de muitos adolescentes e crianças.
Os empregos tornaram-se precários e sê-lo-ão cada vez mais. As empresas já não oferecem garantias de emprego para sempre. As reformas já não podem ser uma interrupção, o fim de uma época da nossa vida. Os bons empregos já não são os de antigamente. Há novas profissões a germinar por esse mundo fora. A sociedade é outra. Não é pior que muitas outras do que os nossos antepassados viveram.
Não podemos permitir-nos viver como se tudo estivesse como antes quando hoje tudo de desenrola e transforma muito rapidamente. Vivemos a sociedade da informação e isto não é apenas um nome bonito para uso dos economistas e dos políticos. Não. Hoje vivemos no meio da profusão de meios de comunicação que nos permitem uma vida diferente, mais ousada, mais diversa, mais interessante, mais útil. Nós temos é também de MUDAR. Mudar a nível pessoal.
Temos então de nos informar mais, ler mais, tentar compreender as novas regras da sociedade, manter-nos como cidadãos do mundo e não apenas como pessoas cujo horizonte finda na nossa rua ou nos limites da nossa cidade. De outra forma ficaremos mais e mais obsoletos sendo ultrapassados muito rapidamente pelos mais novos, pelos nossos próprios filhos.
Vivemos numa sociedade plena de oportunidades e possibilidades de realização. Temos, porém, de a compreender e como funciona e de nos mantermos activos e envolvidos sem medo de nós próprios nos assumirmos como agentes de mudança! E então a ansiedade desa-parece…
Leitura complementar, clik aqui: www.infofuturo.blog.com .
Quando a idade não conta…

A idade aparente. Numa sociedade em que a imagem e a informação assumem uma importância crucial as pessoas têm medo de parecer velhas. É um medo irracional mas compreensível porque resulta do facto de termos construído uma sociedade ávida de juventude, acção e novidade, obsessivamente consumista e devoradora de imagens. Já não é apenas o envelhecer que assusta mas também o ficarmos fora de moda (na aparência, no vestuário, no penteado, nas ideias, nas crenças, etc).
A idade psicológica. O médico Deepak Chopra, citando um velhinho bem-humorado, escreveu que “temos a idade que acreditamos ter”. Todos sabemos como os pensamentos são poderosos. Eles estão por detrás da maioria dos nossos comportamentos conscientes e atitudes. Uma mente saudável é uma mente por natureza sempre jovem e resistente ao tempo que passa e às suas vicissitudes. Uma vida com projectos e objectivos sensatos altera a percepção que poderíamos ter do envelhecimento se apenas ficássemos passivamente à espera da morte. Por isso mesmo, em muitas pessoas, a idade psicológica difere (para melhor ou para pior) da idade cronológica.
A idade cronológica. O famoso paleontologista (já falecido prematuramente) Stephan Jay Gould alertou-nos para a “falsa medida do Homem” e as crenças em torno dos instrumentos de avaliação da inteligência, do desenvolvimento cognitivo, etc. Não sei porquê, ao escrever este comentário, ocorreu-me pensar nisso. É que a idade cronológica, porque se baseia na noção de tempo mensurável (calendarizado), conduz facilmente a preconceitos e ideias tortuosas. No Ocidente moderno e industrializado ser idoso é ser velho e decrépito, ignorando-se toda a sabedoria e maturidade adquiridas por uma vida de aprendizagens e experiências. Os idosos limitam-se, na maioria dos casos, a sobreviverem dia-a-dia encarando a morte como uma libertação. Mas em muitas sociedade antigas do Oriente, com outras culturas e entendimento do mundo, ser-se velho é ser-se dono do saber, da maturidade e da prudência. Ali ninguém tem medo de envelhecer e o calendário tem apenas uma importância relativa.
A idade emocional. A idade emocional está associada à maturidade. O auto-conhecimento e a boa governação da emocionaliade conduzem a relações interpessoais sadias e serenas, reduzem o stress (causa de doenças e envelhecimento) e facilitam expansão da consciência que nos permite vivermos a sensação de travar a “caminhada” do tempo.
A idade biológica. Sob o ponto de vista físico-químico esta é a idade que acompanha a entropia, as mudanças provocadas pelo tempo que passa e o envelhecimento. Hoje em dia, com a melhoria dos cuidados de saúde e a irradicação de muitas doenças que antigamente dizimavam populações inteiras, a esperança de vida aumentou. Podemos lutar contra a entropia através da adopção de estilos de vida harmoniosos e compatíveis com os nossos sonhos. A alimentação, o descanso adequado (dormir as horas necessárias à recuperação) e uma vida activa ajudam os nossos genes e as nossas células a manterem-se jovens e flexíveis por mais tempo.
A idade espiritual. Para além das energias do corpo existe certamente uma energia subtil que percorre uma realidade que está protegida do envelhecimento e dos factores negativos da entropia. É a energia espiritual que reside na essência do nosso ser. Trata-se de um campo de não mudança (como escreveu Chopra) que está presente na personalidade de cada um e que influencia os nossos pensamentos, comportamentos, escolhas e decisões.
A idade social. Sendo o homem um ser social, as relações entre os indivíduos são vitais para a evolução, tanto a nível pessoal como colectivo. As pessoas que sabem interagir com os outros e bsaeiam os seus comportamentos em valores, normas e pensamentos (e ideologias) que defendem a solidariedade, a fraternidade e o interesse social e colectivo sentem-se úteis e integradas e, por isso mesmo, mais jovens e activas.
Parte deste texto foi publicada na revista SÁBADO, edição de 9 de Dezembro de 2005
