Saturday, December 10, 2005

Horizonte de tempo.

Chama-se “horizonte de tempo” e traduz a capacidade de conce-bermos o tempo na nossa mente e de nos projectarmos no futuro. É o período cognitivo dentro do qual somos capazes de projectar, planear e executar acções no futuro. Elliot Jacques, um antigo professor de sociologia britânico, chamou a esta capacidade “janela do tempo”.

Elliot Jacques foi peremptório: “a duração máxima de tempo que a mente de uma pessoa pode alcançar permite avaliar e definir o nível do poder cognitivo dessa pessoa”.

Geralmente, as pessoas com um horizonte de tempo amplo são bastante inteligentes e, por isso, podem ser magníficos visionários (no sentido em que percebem as mudanças subtis que ocorrem na sociedade e são capazes de intuitivamente conceber o que vai acontecer), além de excelentes condutores de missões. 

Efectivamente, aumentam as provas (científicas) de que quanto mais longe o nosso cérebro for capaz de “trabalhar” no tempo mais inteligentes nos tornamos. Essa capacidade está localizada nos chamados “lobos frontais”, as zonas mais modernas (em termos evolutivos) do cérebro humano. Nas pessoas em que o “horizonte de tempo” é pequeno verifica-se alguma rigidez na elasticidade de resposta a desafios em que o factor tempo seja prioritário.

Em épocas como a nossa - em que temos de lidar com a complexidade, a ambiguidade, a rapidez dos acontecimentos e o paradoxo - as pessoas habilitadas a funcionar com amplos “horizontes de tempo” estão mais à-vontade para responderem criativamente aos desafios.

Robert Cooper, um prestigiado psicólogo organizacional, foi um extraordinário professor que me fez perceber a importância que cada um de nós deve dar ao factor “tempo” e à “percepção do futuro”.

Recordo alguns dos seus conselhos para agilizarmos a mente e desenvolvermos nela o “horizonte de tempo”:

  • estar abertos a todas as fontes de informação;
  • procurar mais do que uma resposta para os problemas;
  • usar conhecimentos ou dados contraditórios para gerar respostas alternativas;
  • pensar fora das regras e normas habituais (ser criativo e inovador!!);
  • dar atenção a tudo aquilo que, relativamente a um problema, fique por dizer;
  • não ter receio de gerar “novas teorias” ou de ”ver as coisas de forma diferente”;
  • encarar a incerteza como recurso!

Este professor sugeria também que, para começar, deveríamos desenvolver “uma visão pessoal do tempo futuro” (uma verdadeira “autobiografia futura”), imaginando-nos a actuar num tempo futuro. Aliás, este é um exercício que costumo aconselhar frequentemente às pessoas com alguns problemas de adaptação: convido-as a imaginar onde gostariam de estar e de fazer a 5 ou 10 anos de distância! Não é um trabalho de adivinhação mas de preparação mental e de expansão da consciência para o futuro. Os resultados são habitualmente muito animadores.

Como se faz isso? Recordo as palavras do professor: programar algum tempo semanal para, num lugar calmo, olhar para o futuro “vendo-nos” a actuar onde gostaríamos de estar. É um trabalho pró-activo é susceptível de alargar o nosso “horizonte de tempo”.

Estámos muito agarrados ao passado (estudamos a História), vivemos muito dependentes do que já aconteceu nas nossas vidas. O agora é fugidio e também não lhe prestamos a atenção devida. Olhando mais para a frente - o futuro - restam-nos planos, ambições ou medos. Há quem se recuse a pensar na vida a mais de uns quantos meses para a frente.

O futuro, de facto, não existe; está por acontecer, é indeterminado. Mas ao desenvolvermos a nossa “visão” interior ficaremos mais aptos a enfrentar com sucesso e de forma positiva tudo aquilo que o futuro nos trouxer. Por outro lado, ficaremos mais habilitados a modificarmos no presente elementos que irão repercurtir-se no futuro, alterando aquilo que um tanto fatalisticamente chamamos de “destino”.

Leituras adicionais: www.infofuturo.blog.com

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Friday, December 9, 2005

Tempos de ansiedade.

Vivemos numa época difícil da Humanidade. Mais do que em qualquer outro tempo da história humana, este momento que atravessamos é particularmente inquietante. Na verdade, estamos bem no centro de uma encruzilhada onde ideias, convicções, modelos e certezas do passado se misturam com novos elementos, conceitos e valores de uma sociedade em acelerada transformação. Muitas pessoas ainda não se aperceberam como o mundo se modificou nos últimos 10 ou 15 anos e como isso começou a afectar as suas vidas. Outras, desorientadas, não descortinando as novas referências por que devem reger-se, vivem angustiadas, com uma sensação de perigo entranhada na alma.

Findou uma época. A nova é carregada de complexidades, incertezas, imprevisibilidades, rápida mudança e ambiguidades. O seu anúncio já se fazia ecoar desde os anos 60 em obras como “O choque do futuro” de Alvin Toffler e mais tarde em “A conspiração aquariana” de M. Ferguson. Fez-se anunciar também através do eclodir de movimentos e escolas como a New Age (Nova Era).

Habitamos um mundo onde coexistem dois paradigmas: o do materialismo tecnicista, fruto da idade fabril e tecnológica e o do novo espiritualismo que faz apelo à reconversão dos valores da serenidade e da sabedoria. Deste choque de ideologias e crenças resulta uma sociedade compreensivelmente conturbada e confusa. 

Basta abrir um jornal diário para percebermos como está o mundo que nós próprios criámos ou aceitámos que fosse criado (pelos detentores do poder e das grandes escolhas que afectam a sociedade). Desemprego galopante, inquietações políticas, discursos inflamados mas vazios de ideias, ódios desmedidos, consumismo idiota e sem nexo, a procura atabalhoada pelo sucesso rápido, o deslumbramento dos novos ricos (jogadores de futebol, vedetas do mundo do espectáculo, etc), a desorientação visível e a ingenuidade assustadora de muitos adolescentes e crianças.

Os empregos tornaram-se precários e sê-lo-ão cada vez mais. As empresas já não oferecem garantias de emprego para sempre. As reformas já não podem ser uma interrupção, o fim de uma época da nossa vida. Os bons empregos já não são os de antigamente. Há novas profissões a germinar por esse mundo fora. A sociedade é outra. Não é pior que muitas outras do que os nossos antepassados viveram.

Não podemos permitir-nos viver como se tudo estivesse como antes quando hoje tudo de desenrola e transforma muito rapidamente. Vivemos a sociedade da informação e isto não é apenas um nome bonito para uso dos economistas e dos políticos. Não. Hoje vivemos no meio da profusão de meios de comunicação que nos permitem uma vida diferente, mais ousada, mais diversa, mais interessante, mais útil. Nós temos é também de MUDAR. Mudar a nível pessoal.

Temos então de nos informar mais, ler mais, tentar compreender as novas regras da sociedade, manter-nos como cidadãos do mundo e não apenas como pessoas cujo horizonte finda na nossa rua ou nos limites da nossa cidade. De outra forma ficaremos mais e mais obsoletos sendo ultrapassados muito rapidamente pelos mais novos, pelos nossos próprios filhos.

Vivemos numa sociedade plena de oportunidades e possibilidades de realização. Temos, porém, de a compreender e como funciona e de nos mantermos activos e envolvidos sem medo de nós próprios nos assumirmos como agentes de mudança! E então a ansiedade desa-parece…

Leitura complementar, clik aqui: www.infofuturo.blog.com .

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Quando a idade não conta…

 
 
A jornalista Patrícia Paixão, da revista Sábado, pediu-me que comentasse as “idades do homem” que o filósofo argentino Guido Mizrahi defende. Gostei de falar sobre este tema pois, hoje em dia, temos normalmente  uma relação difícil e por vezes complexada (e ambígua) com a idade.
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Segundo Mizrahi todos nós convivemos com 7 diferentes idades. Não apenas a idade cronológica (que se rege pelo calendário) nem tão pouco a idade mental (que se mede nos testes de inteligência) mas outras idades.
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Ora bem. O conceito de idade está normalmente relacionado com o tempo e faz parte dos vários elementos que nos ajudam a identificar pessoas, animais, acontecimentos, etc. Dizemos que fulano tem 40 anos de idade e com essa informação em mente ficamos com um dado importante: o tempo que já leva de vida (onde se inclui a experiência, as realizações, a maturidade adquirida, etc, etc.).
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A idade - porque se divide em períodos de tempo - é uma medida de tempo. É quantitativa e não qualitativa. O tempo, para nós, existe como um valor absoluto, não manipulável e, por conseguinte, a percepção que temos dele é mecanicista.
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A medição do tempo é um produto da inteligência humana e resultou da necessidade das sociedades primitivas se organizarem num mundo que se tornava cada vez mais complexo. Aos homens antigos, a memória dizia-lhes que havia um tempo que se esfumava e se diluia no passado e um tempo futuro que se aproximava. Idealizaram então o tempo como uma linha que corria do futuro para o passado. E nasceram daí o calendário e o relógio. Medir o tempo tornou-se obsessivo. Inventaram-se os milénios, os séculos, as décadas, os anos, os meses, as semanas, os dias, as horas, os minutos, os segundos, os nanossegundos (o nanossegundo é a bilionésima parte de um segundo durante a qual a luz viaja 30 cm)…
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Nada mudou de muito significativo no Universo desde que o Homem apareceu na Terra mas a medição do tempo e a entrada em cena do conceito de idade mudaria a nossa percepção do mundo e da vida. Agora, mais do que nunca, a idade mede-se em função de uma noção de tempo cada vez mais matemática, o que nos torna cativos do absoluto.
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É isto mesmo que nos assusta e incomoda. É que tudo nos sugere que a idade avança. E quando avança arrasta outros acontecimentos, o mais importante dos quais é a entropia que conduz à mudança e ao envelhecimento. Aparentemente, a idade nunca recua e, assim, há idades em que o que mais ambicionamos é ficar mais velhos e outras em que aquilo que mais desejamos é ficar mais novos sem que, todavia, nada se altere. Ou seja, a idade cronológica - da qual nada nem ninguém consegue fugir (nem para a frente nem para trás) - constitui uma importante referência para a sociedade humana ao contrário do que ocorre com os outros animais para quem a noção do tempo que passa não existe ou não existe tão refinada como entre nós.
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O filósofo Guido Mizrahi, porém, chama-nos à razão. Não temos nada que nos sentir prisioneiros da idade cronológica pois a vida humana manifesta-se e evolui através de outras extensões que estão para além do próprio tempo. De certa forma está de acordo com um outro autor famoso - Deepak Chopra - para quem a vida é muito mais do que contar os anos e envelhecer…
 
As idades da gente

A idade aparente. Numa sociedade em que a imagem e a informação assumem uma importância crucial as pessoas têm medo de parecer velhas. É um medo irracional mas compreensível porque resulta do facto de termos construído uma sociedade ávida de juventude, acção e novidade, obsessivamente consumista e devoradora de imagens. Já não é apenas o envelhecer que assusta mas também o ficarmos fora de moda (na aparência, no vestuário, no penteado, nas ideias, nas crenças, etc).

A idade psicológica. O médico Deepak Chopra, citando um velhinho bem-humorado, escreveu que “temos a idade que acreditamos ter”. Todos sabemos como os pensamentos são poderosos. Eles estão por detrás da maioria dos nossos comportamentos conscientes e atitudes. Uma mente saudável é uma mente por natureza sempre jovem e resistente ao tempo que passa e às suas vicissitudes. Uma vida com projectos e objectivos sensatos altera a percepção que poderíamos ter do envelhecimento se apenas ficássemos passivamente à espera da morte. Por isso mesmo, em muitas pessoas, a idade psicológica difere (para melhor ou para pior) da idade cronológica.

A idade cronológica. O famoso paleontologista (já falecido prematuramente) Stephan Jay Gould alertou-nos para a “falsa medida do Homem” e as crenças em torno dos instrumentos de avaliação da inteligência, do desenvolvimento cognitivo, etc. Não sei porquê, ao escrever este comentário, ocorreu-me pensar nisso. É que a idade cronológica, porque se baseia na noção de tempo mensurável (calendarizado), conduz facilmente a preconceitos e ideias tortuosas. No Ocidente moderno e industrializado ser idoso é ser velho e decrépito, ignorando-se toda a sabedoria e maturidade adquiridas por uma vida de aprendizagens e experiências. Os idosos limitam-se, na maioria dos casos, a sobreviverem dia-a-dia encarando a morte como uma libertação. Mas em muitas sociedade antigas do Oriente, com outras culturas e entendimento  do mundo, ser-se velho é ser-se dono do saber, da maturidade e da prudência. Ali ninguém tem medo de envelhecer e o calendário tem apenas uma importância relativa.

A idade emocional. A idade emocional está associada à maturidade. O auto-conhecimento e a boa governação da emocionaliade conduzem a relações interpessoais sadias e serenas, reduzem o stress (causa de doenças e envelhecimento) e facilitam expansão da consciência que nos permite vivermos a sensação de travar a “caminhada” do tempo.

A idade biológica. Sob o ponto de vista físico-químico esta é a idade que acompanha a entropia, as mudanças provocadas pelo tempo que passa e o envelhecimento. Hoje em dia, com a melhoria dos cuidados de saúde e a irradicação de muitas doenças que antigamente dizimavam populações inteiras, a esperança de vida aumentou. Podemos lutar contra a entropia através da adopção de estilos de vida harmoniosos e compatíveis com os nossos sonhos. A alimentação, o descanso adequado (dormir as horas necessárias à recuperação) e uma vida activa ajudam os nossos genes e as nossas células a manterem-se jovens e flexíveis por mais tempo.

A idade espiritual. Para além das energias do corpo existe certamente uma energia subtil que percorre uma realidade que está protegida do envelhecimento e dos factores negativos da entropia. É a energia espiritual que reside na essência do nosso ser. Trata-se de um campo de não mudança (como escreveu Chopra) que está presente na personalidade de cada um e que influencia os nossos pensamentos, comportamentos, escolhas e decisões.

A idade social. Sendo o homem um ser social, as relações entre os indivíduos são vitais para a evolução, tanto a nível pessoal como colectivo. As pessoas que sabem interagir com os outros e bsaeiam os seus comportamentos em valores, normas e pensamentos (e ideologias) que defendem a solidariedade, a fraternidade e o interesse social e colectivo sentem-se úteis e integradas e, por isso mesmo, mais jovens e activas.

Parte deste texto foi publicada na revista SÁBADO, edição de 9 de Dezembro de 2005

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